Muitos profissionais de saúde compreendem que integrar a espiritualidade ao cuidado significa respeitar as crenças do paciente, permitir práticas religiosas ou oferecer conforto diante do sofrimento.
Mas será que isso é suficiente?
Essa foi uma das questões que atravessaram minha pesquisa de mestrado em Bioética, posteriormente publicada na Revista Iberoamericana de Bioética, em 2025. Ao investigar a percepção de profissionais de equipes multidisciplinares de Cuidados Paliativos, encontramos um aspecto que merece atenção: embora reconhecessem a importância da espiritualidade, sua integração à assistência acontecia frequentemente de maneira intuitiva, fundamentada sobretudo no respeito às crenças e aos valores das pessoas cuidadas.
O respeito é indispensável. Entretanto, respeitar a espiritualidade não é necessariamente o mesmo que oferecer cuidado espiritual.
O cuidado espiritual pressupõe uma postura ativa, capaz de identificar, acolher e responder às necessidades relacionadas aos sentidos, valores, crenças e experiências de transcendência de cada pessoa.
Isso se torna especialmente importante quando pensamos nas decisões clínicas.
Ao discutir uma intervenção invasiva, uma tentativa de reanimação ou os limites de determinado tratamento, não estamos apenas diante de possibilidades técnicas. Estamos também diante de alguém que possui uma história, uma compreensão particular sobre a vida e a morte e valores que influenciam aquilo que considera significativo.
A espiritualidade, portanto, não deveria aparecer somente quando o paciente solicita uma oração ou manifesta determinada crença religiosa. Ela também pode estar presente nas decisões, nas relações e na maneira como cada pessoa compreende sua experiência de adoecimento.
Há, porém, um desafio importante: como oferecer um cuidado que reconheça essa dimensão sem impor nossas próprias convicções?
A Bioética Narrativa nos oferece uma perspectiva interessante. Ela nos convida a reconhecer que as decisões clínicas não acontecem desvinculadas das histórias de seus protagonistas. Conhecer o diagnóstico e as possibilidades terapêuticas é fundamental, mas não significa conhecer inteiramente a pessoa que recebe o cuidado.
É preciso disposição para escutar e, sobretudo, para aprender com o outro.
Nossa pesquisa também evidenciou dificuldades na formação dos profissionais para lidar com demandas espirituais, reforçando a importância de desenvolver competências básicas em toda a equipe e de incorporar profissionais especializados em cuidado espiritual aos serviços.
Essa reflexão nos aproxima de outra questão discutida no artigo: não basta considerar o tempo que resta a alguém. É necessário reconhecer como essa pessoa deseja viver esse tempo.
Na perspectiva da kalotanásia, o cuidado não se limita à preocupação com a morte em seu tempo adequado, mas contempla a dimensão ética e estética do viver e do morrer. Trata-se de reconhecer que a dignidade também está relacionada à possibilidade de viver de acordo com aquilo que confere sentido à própria existência.
Talvez um dos grandes desafios dos Cuidados Paliativos esteja justamente nisso: construir planos de cuidado que não sejam apenas tecnicamente adequados, mas que também façam sentido para quem os recebe.
Afinal, a espiritualidade não é simplesmente mais uma dimensão a ser considerada. Ela pode ser parte fundamental daquilo que orienta a maneira singular como cada pessoa deseja viver, ser cuidada e, quando chegar o momento, morrer.
Texto inspirado no artigo científico:
Oliveira, R. K., & Esperandio, M. R. G. (2025). A percepção da equipe sobre a dimensão espiritual nos cuidados paliativos: reflexões bioéticas. Revista Iberoamericana de Bioética, (28), 1–18.
